Uma colecção é a materialização da personalidade, gosto e vivência daquele que a reúne. Este espaço, fruto do empenho paciente de Vítor Carmona e Costa e Maria da Graça Carmona e Costa, concentra uma importante colecção de porcelanas da China e faianças portuguesas, através das quais é possível conhecer um pouco da História portuguesa dos séculos XVI ao XVIII e, simultaneamente, algo da personalidade daqueles que a reuniram.
Um dos aspectos estruturais destas duas colecções cerâmicas é o facto de diversos objectos aqui apresentados serem únicos ou muito raros, traçando uma apetência pelo invulgar e pelo que sobressai do comum. A inclinação por estes materiais parece indiciar uma sensibilidade ligada à fragilidade do Belo, à sua efemeridade, associada a uma necessidade de proteger memórias, pessoais e colectivas, abrigando-as num espaço fora da voragem do Tempo, mas permitindo o seu usufruto por aqueles que a elas são sensíveis. É aqui evidente o gosto pela História e a consciência do modo como ela se projecta na nossa experiência individual.
O gosto pela porcelana da China reflecte a vocação nacional para o exótico e para a lembrança de um período mítico de glória e de abertura ao mundo, levada a cabo pelos portugueses. Na faiança aqui reunida é também sintomática a receptividade a essas referências, no modo como eram (re)interpretadas, associando a prática da olaria tradicional à sofisticação de outros mundos. A permanência de valores na predisposição para a mudança…
Estes são também eixos da personalidade de Vítor Carmona e Costa e Maria da Graça Carmona e Costa: uma curiosidade pelo mundo e a persistência da experiência individual e colectiva do que é ser português, a procura do Belo e a consciência da sua fragilidade e da necessidade que obriga à sua salvaguarda, sem esquecer a generosidade da sua partilha. Ainda que esta magnífica colecção signifique tudo isto, talvez o que está verdadeiramente na sua essência é algo mais simples e, simultaneamente, mais complexo. A partilha por mais de meio século de duas vidas, os afectos, as experiências, presenças, ausências, enfim, aquilo que é a condição do ser humano…
Alexandre Nobre Pais
Outubro de 2011
Porcelana Chinesa
A coleção de porcelana chinesa reunida por Vítor e Graça Carmona e Costa é constituída por exemplares pintados quer com azul-cobalto sob o vidrado, quer com esmaltes policromos sobre o vidrado, destinados à exportação, que nos permitem evocar o comércio entre a China e a Europa desde o início do século XVI à atualidade.
Entre as porcelanas azuis e brancas merecem especial realce o extraordinário gomil com a marca do período Zhengde (1506-1521) decorado com versos de um poema persa que convida à oração, provavelmente executado para as florescentes comunidades de mercadores islâmicos no sul da China ou talvez mesmo para os eunucos muçulmanos que desempenhavam importantes cargos na corte chinesa, e um núcleo notável de exemplares azuis e brancos incontornável para o estudo das primeiras encomendas efetuadas pelos portugueses à China.
Maria Antónia Pinto de Matos
Faiança Portuguesa
A colecção de faiança portuguesa da Fundação Carmona e Costa distingue-se pela invulgaridade de alguns dos objectos que a integram. Mais do que um conjunto que permite o conhecimento cronológico de uma das mais interessantes manifestações artísticas nacionais, ela congrega peças – na sua maioria únicas ou raras – que elucidam o visitante acerca da rica diversidade de propostas da manufactura seiscentista nacional.
De entre as peças mais inesperadas, produzida c.1620-1630, destaca-se uma garrafa em forma de sereia, original na morfologia e na utilização da cor laranja nela empregue. Provavelmente destinada a exportação, esta, tal como uma bilha com decoração orientalizante estilizada ou a panela com o brasão associado aos Silva e datada de 1658, são testemunho eloquente de um período de apogeu na produção cerâmica portuguesa.
Alexandre Nobre Pais