Thierry Simões
A Exposição
desenho desejo
(sobre três desenhos de Thierry Simões)
Desenho desejo, o que está um pouco adiante, na página, frente à mão que desenha. Desenho o que vem de lá, ao meu encontro, e que não procuro agarrar, mas tão-só tocar e traçar.
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A arte também começou assim, há milénios, ainda há pouco, com as mãos pousadas na parede, aflorando, um pouco adiante, o desejo indomável. Começou com a mão espalmada, ao encontro do que vem de lá e com o que vai daqui, uma fenda e um sopro, desejo desse encontro, desejo que desenho.
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Desenho desejo, não desenho aqui senão esse desejo, o desejo de desenhar, de tocar na página o que a põe a vibrar, a ressoar, uma corda, talvez, outra mão, que nos faz sinal ou que tange, que fende o ar, a mão desenhada e a mão que desenha, a mão tocada e a mão que toca, frente a frente, vibrando na distância que é o próprio desejo, que eu desenho, que eu preencho com negro vivaz, desejado, tacteado, espalhado.
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Eu sou o desejo que desenho, a distância que enegrece e o ar que vibra. Não sou qualquer coisa deposta frente à parede estanque, sou o movimento, a vibração, a pulsação que se imprime na parede porosa. E quando termino e volto a mim, quando me separo do desenho, apercebo-me de que não sou mais o mesmo, que fui e serei sempre desejo, de mim a mim que desenho.
Tomás Maia
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